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lab_arte - dança

experimentação, 2006  
 monitora do núcleo de dança:
Bárbara Freitas- contato: ba_freitas@yahoo.com.br

 


DANÇA CONTEMPORÂNEA

por Maria Araci Smilari e Débora Silva Carvalho (2007)

Trata-se da realização de uma oficina aberta de Dança Contemporânea, como uma ampliação do trabalho desenvolvido pelo Laboratório de Arte-Educação e Cultura (Lab-Arte) com os alunos da graduação da FEUSP e demais interessados. Já que este laboratório, concebido por alunos da graduação da Faculdade de Educação da USP, sob a orientação do professor doutor Marcos Ferreira Santos, implementado neste ano, tem uma ação comprometida com a especial importância da vivência da arte no processo de formação de educadores. Confluindo também com seu eixo norteador, “Do reencantamento de Si: passo a dentro”, ou seja, a possibilidade do conhecimento de si através desta linguagem. Aliada a um caminho de sensibilização para o mundo, pela experimentação e o ato criativo.

Por se tratar de uma arte do corpo, há ainda a possibilidade de entrar em contato com a linguagem não-verbal, tão pouco valorizada no cotidiano, na vida escolar e universitária. Proporcionando uma vivência prática de expressão, comunicação e criação através do corpo. A oficina será pautada no conceito de Rudolf von Laban do movimento dançado, onde a ação exterior é subordinada ao sentimento interior. Nesta proposta, a técnica é utilizada de modo a facilitar o movimento dançado – trabalhando com os conceitos de equilíbrio, tensões e energia –, propiciando assim uma pesquisa do espaço do corpo e de criação do espaço com o movimento.


Sobre o Lab_Arte e o Grupo de Dança da FEUSP

No ano de 2004, um grupo de alunos da graduação da FEUSP, percebendo a possibilidade de se valorizar e aumentar a quantidade de projetos relacionados à Arte-Educação e Cultura dentro de nossa faculdade, promoveu reuniões para debater e refletir o tema. O diálogo dessa reflexão com o curso “Cultura e Educação I”, ministrado pelo Profº Drº Marcos Ferreira Santos, e com o evento “Memória e Resistência: Educação pelo engajamento” (realizado em parceria pelo Centro de Estudos do Imaginário, Cultura e Educação – CICE e pela Associação de Educadores e Pesquisadores – AEP, no ano de 2004) resultou na “I Semana da Arte na Educação”. Realizado no mês de novembro de 2004, consistiu em apresentações culturais, oficinas e mesas de discussão, que buscaram proporcionar vivências artísticas e a reflexão destas além do acesso a uma diversidade artístico-cultural.

Nesse mesmo ano, a Faculdade de Educação assistiu ao nascimento e às apresentações, em eventos da FEUSP, do conjunto musical chamado Pedagogós. A banda, que hoje já realiza shows em outros espaços, teve seu passo inicial na FEUSP, onde recebeu acolhimento e apoio, e teve a oportunidade de amadurecer.

No ano seguinte, foram iniciadas as atividades do grupo de discussão sob a orientação do Profº Drº Marcos Ferreira Santos. Tratava-se de encontros semanais com o intuito de refletir questões acerca da Arte, Cultura e Educação. Este mesmo professor orientou os alunos deste grupo em suas pesquisas que convergiam no mesmo tema: Débora Maclean, Marília Lemos Maia e Vinicius Medrado realizaram pesquisas de Iniciação Científica em torno do tema Música e Educação; a aluna Soraia Faria elaborou seu Trabalho de Conclusão de Curso sobre a importância da Arte na Educação; e a aluna Débora Silva Carvalho atuou como bolsista do projeto IV intitulado Catalogação Iconográfica em Antropologia Simbólica. Ao final deste mesmo ano, professores, alunos e funcionários se uniram para organizar e vivenciar o “Fermentação” – um grande almoço coletivo servido com música, pintura, ciranda e a integração calorosa das pessoas que estavam presentes e que formam a comunidade da FEUSP.

Todas essas experiências sobressaltam a existência de um movimento de pessoas, de idéias, de realizações. Apontam à mesma busca, seguida de concretizações. Busca por uma experiência de criação, de conhecimento de si, de sentimento de coletividade. Convergem por realizá-la através da vivência artística compartilhada com o outro.

No início de 2005, com o intuito de novamente experienciar essa busca, porém de forma ainda mais intensa, um projeto de Arte-Educação e Cultura foi idealizado – caracterizando-se por garantir o aprofundamento e a continuidade de suas atividades. Tratava-se da formação de grupos de vivências artísticas (como artes visuais, dança, música, teatro...) e de um grupo de discussão que refletisse a Arte-Educação e sua relação com a Cultura. A partir desta idéia, foi plantada sua primeira semente: o início das atividades do Grupo de Dança, com o intuito de que sua formação estimulasse o surgimento de outros grupos, e assim constituir o Laboratório do Laboratório Experimental de Arte-Educação e Cultura.

De maio a novembro de 2005, resultante da demanda e dinâmica presentes no momento, um grupo de alunos organizou, de modo autogerido e orçamento inexistente, o Grupo de Dança. Abertos aos estudantes da FEUSP e demais interessados, os encontros se configuravam no formato de oficinas ministradas por profissionais convidados de diferentes gêneros de dança. Os espaços utilizados eram salas de aula da Faculdade de Educação, ou o Salão Nobre da Escola da Aplicação. Para tanto, tínhamos apoio da direção da FEUSP e do Centro Acadêmico Professor Paulo Freire, gestão Roda-Viva. Dessa forma, ao longo do primeiro semestre de 2005, e início do segundo semestre, foram realizadas treze oficinas, como mostra o cronograma abaixo:

Data Reunião/Oficina Responsável pela Oficina
16/05 Reunião -x-
18/05 Reunião -x-
23/05 Flamenco Barbara Buck
25/05 Percepção Corporal Julia Henning
30/05 Preparação Corporal para a Dança Marisa Farah
01/06 Cacuriá Renata Saito
06/06 Dança do Ventre Carolina Kondratiuk
08/06 Reunião -x-
13/06 Danças Brasileiras Deise Alves
15/06 Dança de Rua Rebeca Komukai
20/06 Jazz Débora Carvalho e Juliana Carvalho
22/06 Percussão Corporal Vinicius Medrado
27/06 Reunião -x-
RECESSO
03/08 Reunião -x-
09/08 Expressão Corporal Aline Caetano
12/08 Capoeira Reinaldo Antônio dos Santos
19/08 Reunião -x-
24/08 Dança Contemporânea Araci Smilari
26/08 Reunião -x-
21/11 Dança Contemporânea Araci Smilari
(Estes vinte encontros realizaram-se das 18h às 19h30, no primeiro semestre, alternando em segunda ou quarta-feira, e no segundo semestre, em quarta e sexta-feira, com algumas exceções, utilizando o espaço físico do Salão Nobre da Escola da Aplicação, ou de sala de aula do Bloco B da FEUSP previamente reservada).

A estrutura inicial de oficinas de diferentes gêneros foi adotada como solução imediata à peculiaridade de um grupo tão heterogêneo, em busca da linha de pesquisa mais adequada à sua identidade como coletivo. Além disso, era necessário que se aguardasse um certo de tempo para que mais alunos da faculdade pudessem tomar conhecimento do grupo e se encorajassem a fazer parte dele que, obviamente, ainda está em processo de definição.

Os responsáveis pelas oficinas eram pessoas capacitadas a ministrarem uma aula prática relacionada às artes do corpo. Muitas delas eram atuantes na organização do projeto também, as demais eram pessoas com as quais tínhamos contato, e que se dispuseram a compartilhar seus conhecimentos sem qualquer remuneração. Todos os oficineiros foram consultados com relação ao interesse em dirigir este grupo, visto que para uma segunda etapa do projeto (a qual se concretiza neste momento como parte do Lab_Arte), o mais adequado seria aprofundar uma única linha.
Os resultados que pudemos observar com essa experiência descrita, indubitavelmente, são frutos de bastante valor. Muito aprendemos: desde a forma de como melhor lidar com os trâmites internos da faculdade (ofícios para reserva de sala, pedido de apoio da direção, professores e Centro Acadêmico), como divulgarmos as oficinas, como estabelecer uma dinâmica saudável para o grupo; o encontro com o nosso corpo, através de um olhar diferenciado e sensível, em busca de auto-conhecimento e conscientização corporal, que aflora e potencializa o uso do próprio corpo como meio de expressão; além de dar um passo adiante com relação às nossas pretensões quanto ao projeto Lab_Arte, sendo um propulsor de atividades sistemáticas de Arte-Educação na FEUSP.

A sistematização do grupo se deu inicialmente pela seleção do gênero de dança que melhor se adequava ao coletivo das pessoas envolvidas, e do profissional que apresentou uma dinâmica com a qual nos identificamos e que respeitava a dinâmica do grupo. Em seguida, o Grupo de Dança foi incorporado ao projeto do Laboratório Experimental de Arte-Educação e Cultura que, assim como ocorre com o Grupo de Teatro e o Grupo de Discussão, tem norteado nossas atividades.

A elaboração do projeto do Lab_Arte foi feita em janeiro deste ano, em um curto espaço de tempo visto a urgência em encaminhá-lo na reunião da Comissão de Graduação, para ser avaliado antes do início do ano letivo. Ele teve autoria de alunos do curso de graduação da FEUSP e a orientação do professor Dr. Marcos Ferreira Santos. Mesmo sem sua aprovação, iniciamos suas atividades no mês de março.

A sua intenção é a de intensificar a vivência e a reflexão de seus participantes em diferentes linguagens artísticas – comunidade USP e comunidade externa – voltada à Arte-Educação e seu diálogo com diferentes Culturas. Para tanto, as atividades do Laboratório pretendem se consolidar em uma práxis reflexiva: grupos de vivência aliados a um grupo de discussão teórica. Possibilitando – dentro de um centro de formação de formadores, a Faculdade de Educação – um espaço de descoberta da importância da arte e do diálogo com outras culturas no percurso formativo da pessoa e, portanto, sua relevância imediata na formação do educador.
Os grupos de vivência, com encontros duas vezes por semana, têm a proposta de realizar um processo de aprendizagem artística direcionado por um Educador responsável. A opção em dividir estruturalmente o Lab_Arte justifica-se pelo intuito do projeto de garantir que cada uma das áreas supracitadas receba um cuidado que respeite as suas especificidades, permitindo uma maior exploração de cada uma destas. No entanto, esta formatação não significa que haja uma separação rígida das disciplinas, pretendendo-se que todas as áreas sejam beneficiadas pela rica experiência de intercâmbio entre as linguagens artísticas.

Cada um destes grupos apresenta características específicas de organização, dinâmica, pessoas responsáveis, cronograma e orçamento. Contudo, como foi colocado, estes grupos estão unidos pelo mesmo eixo temático que guiará suas atividades ao longo do ano. Além disso, temos um Grupo de Discussão com encontros para debates que tratem dos assuntos que permeiam as atividades em curso, como exemplo, o percurso formativo da pessoa e do educador. No mesmo sentido, promoveremos um evento no final do ano para apresentações artísticas trazendo aquilo que foi trabalhado, tanto nas vivências práticas quanto teóricas, com o intuito de compartilhar este conhecimento e divulgar nossas atividades.

Nosso eixo norteador é “Do reencantamento de Si: passo a dentro”, ou seja, a possibilidade do conhecimento de si através da linguagem artística. Aliada a sua potencialidade de sensibilização da pessoa para o mundo e proporcioná-la a experimentação e o ato criativo.

Assim, no decorrer de 2006, o Grupo de Dança se estruturou, as aulas são de Dança Contemporânea, ministradas pela educadora Maria Araci Smilari, que nos direciona para o exercício de nosso auto-conhecimento, expressão, criação, o trabalho com a linguagem corporal, o aprendizado técnico, entre outros benefícios que a dança pode oferecer.
Todo este trabalho pretende culminar numa apresentação de Dança Contemporânea representada por todos os participantes das aulas práticas, com o fim de organizar todo o conhecimento, verbal ou não, construído ao longo do ano, e compartilhar e divulgar para as outras pessoas. Este evento está previsto para a primeira semana de dezembro.

Justificativas

São freqüentes os estudos que apontam os benefícios trazidos do diálogo entre Arte e Educação. Cada vez mais são desenvolvidos projetos em instituições escolares e/ou não escolares referentes a esta disciplina preocupados com a formação de pessoas reflexivas, criativas, dinâmicas, autônomas, questionadoras e sensíveis. Nesse mesmo sentido, a vivência da Arte mostra-se um espaço fecundo à abertura do diálogo com diferentes culturas e, com isso, a percepção do humano. Tais vivências, de fato, auxiliam a busca de cada um no caminho do conhecimento de si e de solicitude ao outro. Frente a isso, torna-se evidente a importância da existência de atividades que contemplem esta temática na Faculdade de Educação.

São encontrados na FEUSP momentos pontuais de abordagem da Arte-Educação e Cultura. Foi estabelecida, na grade curricular do curso de Pedagogia, a obrigatoriedade da disciplina “Metodologia de Ensino de Arte e Movimento Corporal”, além do oferecimento de disciplinas optativas, como “Cultura e Educação I” e “Cultura e Educação II” – ambas ministradas pelo Professor Orientador deste projeto, profº Drº Marcos Ferreira Santos.

Da mesma forma, são realizados eventos que trazem esta temática, por exemplo, a “Semana da Arte na Educação” e o “Fermentação” – que tiveram o seu significado na formação do Laboratório ressaltada no histórico deste projeto. Todas essas atividades evidenciam o reconhecimento da importância desta área de estudos defendida tanto por docentes como por alunos da graduação.

Como foi indicado acima, a pesquisa será guiada ao longo deste ano por um eixo temático, “Do reencantamento de si: passo a dentro”. Tal tema refere-se àquilo que acreditamos ser uma das principais características da essência da prática artística: o descobrir-se. Através da sensibilização do olhar e da percepção do mundo e de si, amplifica-se a capacidade da pessoa expressar-se.

Assim, o Lab_Arte pretende aprofundar as atividades relacionadas à Arte-Educação e Cultura de modo processual e contínuo. Acreditamos que a formação sólida em qualquer área do conhecimento requer um tempo prolongado de estudo, já que o processo de aprendizado é gradual. Portanto, este Laboratório tem como proposta seu desenvolvimento e amadurecimento a longo prazo.

A realização de uma oficina de Dança Contemporânea, como extensão das atividades do Grupo de Dança do Laboratório, em um evento como a “Semana da Educação” apresenta-se como uma excelente oportunidade para enriquecer nosso trabalho, por se tratar de um espaço com grande visibilidade, que agrega trabalhos diferentes e inspiradores, e nos possibilita o intercâmbio de saberes.

A abertura de espaço para uma oficina de artes do corpo na “Semana da Educação” é, especialmente, de um valor de bastante significância. Desde o ano de 1997, com a implementação dos Parâmetros Curriculares Nacionais, estabeleceu-se o ensino de Artes nas escolas de Ensino Fundamental e Médio – sendo este constituído por quatro linguagens: artes visuais, teatro, música e dança. Apesar da não obrigatoriedade do uso destes parâmetros, é sabida a relevância que estes apresentam no desenvolvimento e na prática de propostas curriculares das escolas brasileiras. No entanto, mesmo com as diretrizes estatais se referindo a um professor polivalente e que seja contemplado o ensino de artes nas escolas, não raramente notamos a carência da área de Arte-Educação nos cursos de formação de professores.

Esta falta torna-se ainda mais patente quando entramos na esfera da linguagem não-verbal, no nível da percepção através dos sentidos de nosso corpo. Forma de conhecimento de mundo historicamente renegada à dimensão da irracionalidade, carregada de aspectos negativos. Dessa forma, propostas de ensino em Dança-Educação sensíveis e atentas a esta questão são, em geral, raras e pouco valorizadas e, simultaneamente, absolutamente necessárias. Infelizmente, as portas das escolas se abrem para a dança ainda para a realização de apresentações em datas comemorativas com o intuito de “ilustrar” a festa, sem haver um mínimo de criticidade e significado para os envolvidos.

A dança sempre esteve presente como prática cultural de todos os grupos humanos. Não é possível datar de modo exato a origem desta prática cultural, no entanto, gravuras rupestres nos apontam a sua presença desde os primórdios da civilização. Nesta época, o homem diante dos mistérios do mundo – o nascimento, os fenômenos naturais, a doença, a morte – temia, via-se impotente diante desses poderes que lhes eram superiores. Diante disso, sente necessário “transcender sua condição para estabelecer um vínculo com a fonte do poder e entender as leis que regem suas manifestações”. Dançar significava harmonizar-se com os poderes cósmicos. As danças dos caçadores imitavam os animais com o intuito de se apropriar do poder mágico destes seres, o mesmo ocorrendo nas danças para a chuva ou o sol.

Com o sedentarismo e o domínio da agricultura, uma nova dinâmica social é estabelecida, onde os ciclos da natureza tornaram-se vitais. Acompanhando esta mudança, a dança adquire também um novo significado, sendo associada à fertilidade, ao shamanismo, à cura, à mitologia lunar e aos antepassados – ao ciclo de vida e morte.

Na Antigüidade, a dança manteve seu caráter sagrado fazendo parte dos rituais. No Egito Antigo, 6000 a.C., a dança celeste dos astros era vista como demonstração da ordem da natureza. Com o escurecer da noite, vinha uma angústia no homem que, então, iniciava a dança da estrela da manhã. Acreditando que, com isso, manteria a ordem. Assim ensinava aos seus filhos, pelo movimento dos corpos celestes, como prever as épocas de cheia do Nilo e torná-las fecundantes.

Na Grécia, a dança grega está mais associada à figura do deus Dionísio, deus do êxtase e entusiasmo, e aquele que nasce-morre-renasce, vinculado aos ciclos da agricultura. Assim, em sua dança, seus adoradores participavam de seu destino, sofrendo e alegrando-se com o deus. Identificando-se com ele. Homem e divindade tornavam-se unos .
Já na Roma Antiga, foi a pantomina que marcou a dança. Trata-se de transmitir um enredo a partir somente da expressão corporal. Para isso, usavam roupas bordadas, maquilagem pesada ou máscara, e por vezes o peito e as nádegas desnudos. Por esses excessos, com o advento do cristianismo, a pantomina foi considerada imprópria e foi à decadência.

O declínio do Império Romano veio com as constantes guerras, rebeliões e invasões. Diante dessa instabilidade, o clero assume o poder, interferindo em todos os setores da vida pública. Os primeiros cristãos expressavam a sua alegria através da dança, sendo esta um caminho de adoração e salvação. Neste contexto de predominância da Igreja a dança foi, ao mesmo tempo, tolerada e condenada: a Igreja esteve de acordo com esta crença até o século V. Ao mesmo tempo em que São Basílio a considerava a mais nobre atividade dos anjos, Santo Agostinho a tinha como grave pecado. Por fim, o Bispo de Sevilha proíbe a prática da dança.

Nos séculos VIII e IX se espalhou na Europa a dança como parte da liturgia. Até o século XVI, quando o Concílio de Trento (1545-1563) proibiu a dança em igrejas e cemitérios com a ameaça da excomunhão para quem desobedecesse. Entre os séculos XI e XIII, num contexto marcado pela fome, peste e guerra, praticou-se as danças curativas, em honra ao Apóstolo João, Santo Antonio, Virgem Maria e São Vito, e a dança macabra. A dança macabra foi utilizada no teatro religioso medieval para representar “a insanidade causada pelo pecado”, revelava o “pavor do homem diante da morte”. Sendo assim, podemos constatar que não só para expressar sua alegria o homem dançava, mas também para representar suas angústias, medos e tristeza – trata-se de uma busca de um significado para sua condição.

As danças camponesas permaneceram com seu aspecto ritual na Idade Média. No entanto, muitas vezes consideradas pagãs pela Igreja. As danças populares, mais requintadas, compuseram as danças da corte. A partir do século XII, com o trabalho de trovadores, menestréis e jograis de sistematizar posturas e códigos, a dança da corte tornou-se profissional – era o nascimento dos mestres de dança.

Com o Renascimento, surge, então, o balé. Tendo seu centro de expansão inicial na Itália e depois deslocado para França, no século XVII. Neste período, progrediu em nível técnico, principalmente, com Pierre Beauchamp, que estabeleceu as cinco posições dos pés e as regras do port de bras. Mas com o aperfeiçoamento técnico, a técnica foi ganhando um fim em si mesma. Com o declínio da França, em meados do século XIX, o balé muda seu centro de expansão novamente, dessa vez para a Rússia – alcançando um alto nível técnico, com nomes como Petipa, Fokine, Pavlova, Nijinski e Diaghilev.

Apesar do culto ao clássico ser uma das características do Renascimento, pode-se dizer que a proximidade entre balé e os rituais primitivos é estreita – restringindo-se aos temas. O homem renascentista afastava-se do divino. Era o homem assumindo o centro do universo substituindo o teocentrismo. Acompanhando este movimento, a dança perde seu caráter mágico e religioso e foca a técnica, deixando de estar a serviço de Deus e da Natureza, para ficar a serviço dos homens que ocupam o poder.

É no final do século XIX, que Isadora Duncan sobre seus pés descalços rompe com o academicismo e com os dogmas do balé clássico, trazendo de volta o improviso e a espontaneidade da dança. A precursora do balé moderno acreditava que o balé clássico era contra a natureza e a arte, um corte entre corpo e espírito. Sendo que a dança deveria ser uma “expressão divina do espírito humano pelos movimentos do corpo”.

Parte integrante dos rituais primitivos, a dança sofreu transformações ao longo do tempo, porém estando sempre presente em momentos solenes da atividade humana. Mesmo dividindo-se em sagrada e profana, permaneceu nos cultos ocidentais até o século XVI. No entanto, historicamente é possível ser constatado a sua prática diante em diferentes contextualizações e com diferentes concepções:

Sem dúvida, o recurso obrigatório ao corpo e a seus poderes pouco controláveis é o motivo do ostracismo especial que se abateu sobre a dança. Podemos constatar que, desta forma, a Idade Média realizou uma ruptura brutal na evolução da coreografia, normal em todas as culturas precedentes: nas culturas da Alta Antigüidade, a dança é sagrada; numa segunda fase, transformar-se-á em rito tribal totêmico; somente no final da evolução, ela se tornará matéria para espetáculos, matéria de divertimento. Aqui, as duas primeiras fases são proibidas; a dança na Idade Média cristã é apenas divertimento. Sua evolução prossegue apenas neste contexto, o que a levará a ser dança-espetáculo, a única que o mundo ocidental conhece hoje .

Com este pequeno panorama da história da dança no Ocidente pretendemos expor, ainda que de modo breve, a evolução da dança ao longo da história da humanidade – com especial atenção para esta alteração de sua prática cotidiana sagrada para a dança de entretenimento (seja assistindo ou atuando). Ainda que atinjamos também a reflexão na apreciação de espetáculos, são raros os momentos em que dançamos buscando elaborar nossas subjetividades inerentes ao social (soma-se a isso o fato de ser muito comum observarmos pessoas sequer praticarem a dança, por sentirem-se incapacitadas).

Por essas questões inevitavelmente transpassam questões referentes à ideologia predominante em cada momento histórico, às relações de poder, à educação, ao relacionamento com os nossos próprios corpos.

Vivemos em um determinado contexto social no qual estabelecemos uma dinâmica de interação: ao mesmo tempo em que atuamos sobre a realidade, esta nos influencia em nosso modo de pensar, sentir e agir. Nesse sentido, a nossa corporalidade também não é universal e constante, mas é fruto de uma construção sócio-cultural, dentro de um processo histórico. Assim, cada corpo carrega em si suas individualidades e as marcas acumuladas de sua cultura: valores, crenças, leis, sentimentos. A cada contexto, uma variação da concepção de corpo: das técnicas dos movimentos, dos gestos simbólicos, da ética corporal (pudores, ideais de beleza, etc.) e do controle dos impulsos e das necessidades.

Em diferentes épocas e por diferentes abordagens o corpo sempre foi objeto de curiosidade. O estudo do movimento, em particular, permitiu pensar o “gesto humano como comportamento total do ser” .
Temos o corpo e a gestualidade como nossa forma imediata de apresentação ao mundo. A partir dessa idéia central, indagações quanto à dinâmica destas relações entre meu corpo e o do outro, minha gestualidade e a do outro podem surgir. O gesto, como revelador total do comportamento humano, carrega valores morais, nesse sentido, podemos vê-lo como objeto de poder.

O gesto é objeto de percepção sensorial, interpessoal, o gesto coloca em obra, em seu ator, elementos cinéticos, processos térmicos e químicos, traços formais como dimensão e desenho, caracteres dinâmicos, definíveis em imagens de consistência e peso, um ambiente, enfim, construído pela realidade psicofisiológica do corpo de quem provém (...) e do entorno deste corpo.

A ação do gesto envolve todos os sentidos de quem o executa e de quem o interpreta. É constituída de signos, como uma linguagem inalcançável pelo verbo. Permite um reconhecimento moral da pessoa e, se assim o é, controlar o gesto possibilita também uma reforma anterior.

(...) o corpo é o primeiro lugar onde a mão adulta marca a criança, ele é o primeiro espaço onde se impõem os limites sociais e psicológicos que foram dados à sua conduta, ele é o emblema onde a cultura vem inscrever seus signos .

Diante das pedagogias voltadas ao corpo, desde a higienização à “civilização” deste, a educação corporal e o controle do gesto os vêem como objetos de poder através de diferentes modelos técnicos para uma prática social desejada.

Estudos antropológicos revelam que nas sociedades onde houve uma estruturação acentuando a divisão social do trabalho, é menor a expressividade do corpo e maior a instrumentalização deste. Já o homem primitivo, para sua sobrevivência, dependia da acuidade de seus sentidos, da percepção e ação de seu corpo estabelecendo uma relação de união com a natureza. A observação de seus ciclos influenciava diretamente a base social, seu corpo era parte da natureza, daí a celebração corporal, pinturas, danças, música, nos acontecimentos importantes da sociedade.

Nas civilizações orientais, “a experiência do corpo é vista como a chave para a experiência do mundo e para a consciência da totalidade cósmica” .
O homem ocidental, por sua vez, tem na sua relação com a natureza a paixão por descobri-la, dominá-la, transformá-la. Historicamente , valorizando o pensamento racional, em detrimento do intuitivo, numa visão dualista entre mente e corpo. A industrialização dos meios de produção intensificou esta relação e trouxe ao homem moderno ocidental uma “descorporalização”:

Descorporalização significa, por um lado, que, ao longo do processo de civilização, em uma evolução contínua da racionalização, o homem foi tornando-se, progressivamente, o mais independente possível da comunicação empática do seu corpo com o mundo, reduzindo sua capacidade de percepção sensorial e aprendendo, simultaneamente, a controlar seus afetos, transformando a livre manifestação de seus sentimentos em expressões e gestos formalizados .

Com a divisão social do trabalho e a institucionalização e interdependência das funções, as pessoas tem ameaçada a sua existência social: precisam prever suas ações, adiar a satisfação de suas necessidades, reprimir seus afetos. O corpo é instrumentalizado, os movimentos corporais são dissociados para aumentar a produção, o homem perde de vista os fins de sua ação.

Diante desse contexto, torna-se mais compreensível (mas não aceitável) a relação dicotômica existente em nossa sociedade entre corpo e mente, e que encontramos conseqüentemente ns escolas de ensino formal:

Arte e Educação Física permitem esse tipo de idéias por lidarem de forma muito concreta com dois elementos ainda estranhos ao mundo escolar: o corpo e o prazer. De modo geral, as escolas e outras instituições paralelas ou substitutivas delas têm grandes problemas para lidar com o corpo e com o prazer, daí a Arte virar prêmio, castigo, cura, lazer, obrigação e não forma de conhecimento. Ou seja, a Arte como linguagem muitas vezes apenas tangencia os programas escolares e os projetos sociais cujos objetivos não vislumbram a questão do conhecimento específico na área de Arte.

A oficina da “Semana da Educação”

Assim como nas atividades do Grupo de Dança, esta oficina preparada especialmente para a “Semana da Educação” terá como objetivo fazer desta prática uma maneira de conviver, redimensionando nossa identidade, revelando as conseqüências das decisões e ações individuais na construção coletiva, e buscando a autonomia e compreendendo a interdependência.
Importante salientar o trabalho de Rudolf Laban, dançarino, coreógrafo, educador, e grande pesquisador da arte do movimento. Nascido na Eslováquia, no ano de 1879, foi grande contribuinte nas artes do corpo, buscando em outras disciplinas como matemática, física, anatomia, fisiologia e química a compreensão do movimento. Elaborou a teoria de que “o comportamento próprio a cada ser depende essencialmente de seu envolvimento com outros indivíduos e com elementos que participam de seu destino”, considerando desde o movimento de dança até os gestos cotidianos.

Confluímos com o conceito de Laban do movimento dançado: “a passagem de uma posição para outra, resultante de impulsos provenientes do centro do corpo” , estes impulsos possuem características próprias referentes: ao tempo (a velocidade, ou a relação entre aceleração e desaceleração), ao espaço (as diferentes formas e níveis com as quais o bailarino pode se mover, a relação entre amplitude e limitação), à energia (a expressão do gesto, a variação da qualidade do dinamismo do movimento) e à fluência (união, encadeamento entre um gesto e outro).
Estes conceitos são trabalhados em nossa proposta, de modo que a técnica seja utilizada como um instrumento facilitador do movimento dançado, onde a ação exterior é subordinada ao sentimento interior. Propiciando assim uma pesquisa do espaço do corpo e de criação do espaço com o movimento. No momento de aula, essa pesquisa também se dá nos exercícios coreográficos realizados: conjuntos de movimentos que possui nexo próprio ou uma lógica de movimento.

O procedimento adotado nesta proposta segue as seguintes etapas:
- Ler individualmente o movimento e identificar seus múltiplos aspectos;
- Ler coletivamente o movimento;
- Observar e trabalhar o ritmo associado ao movimento;
- Caracterizar a personagem a partir de todas as leituras anteriores;
- Relacionar as personagens para executar (dançar) a coreografia.

Assim, para a "Semana de Educação", elaboramos uma oficina que seja um convite (uma pequena amostra) para o dançar. Com o tema "O Corpo Fala" que compreende a potência do corpo, independente de sua experiência anterior em dança, de falar artisticamente. Na qual abordaremos a arte da presença da pessoa, ou seja, a partir da postura única de cada um, o educador irá trabalhar de modo tornar esta postura artística. Através do ensino da técnica, do conhecimento corporal e da criação. Permitindo que cada aluno, com seu movimento característico, atinja o controle de seus movimentos, descubra suas possibilidades e desenvolva suas potencialidades


Referência Bibliográfica:

BOURCIER, Paul. “História da dança no Ocidente”. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

GONÇALVES, Maria Augusta S. O corpo na vida cotidiana. In “Sentir, pensar, agir: Corporeidade e educação”. Papirus, s/d.

FAHLBUSCH, Hannelore. “Dança: Moderna - Contemporânea”. Rio de Janeiro: Sprint, 1990.

IOSHIMOTO, Lílian W. “A Dança da Alma - a dança e o sagrado: um gesto no caminho da individuação”. São Paulo: PUC, 2000.

MARQUES, Isabel. “Metodologia para o ensino de dança: luxo ou necessidade?”. In Lições de Dança 4 (rev.) Rio de Janeiro: Univercidade, 2004.

MEDINA, João Paulo S. Reflexões sobre o corpo. In “O brasileiro e seu corpo” Papirus, s/d.

SOARES, Carmen Lúcia. Imagens da Retidão: a ginástica e a educação do corpo. In CARVALHO, Yara M. & RUBIO, Kátia (orgs) “Educação Física e Ciências Humanas”. Hucitec, s/d.

Sites
http://agenciacartamaior.uol.com.br

 
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